segunda-feira, Janeiro 30, 2006

A Escola Fisiocrática

Quando os fisiocratas iniciaram a sua actividade teórica, a economia política ainda não estava separada da política económica – era ainda, e apenas, um capítulo da arte do governo. Com os fisiocratas termina a época dos percursos e inicia-se a época dos fundadores da ciência económica. Assim, os fisiocratas foram não só uma escola de pensamento económico, como uma escola de acção política. A ideologia fisiocrática inspirou algumas páginas da Enciclopédia, de Diderot, e alguns aspectos da Revolução Francesa de 1789.
Dupont de Nemours definiu a fisiocracia como a ciência da ordem natural. A doutrina fisiocrática faz parte da família dos sistemas de direito natural; os autores fisiocratas pretendem construir não só um sistema económico, mas uma sociologia geral. A sua noção de ordem natural significava simplesmente que eles consideravam que as sociedades humanas eram regidas por leis naturais como as que governam o mundo físico e a vida de qualquer organismo. Na “Introdução às obras de Quesnay”, Dupont de Nemours diz: “A ordem natural é a constituição física dada por Deus ao universo”. Mas os estudos dos fisiocratas não explicam os fenómenos económicos por analogias circunstanciais ou artificiais com as ciências da natureza: fundamentam-se em factos e utilizam argumentos de natureza económica.
Esta constituição física dada por Deus ao universo, esta ordem natural, é uma ordem providencial. Segundo Quesnay, as leis da ordem natural não restringem a liberdade do homem e são a melhor condição dessa liberdade. Precisamente porque esta ordem natural tem umcarácter providencial, supranatural, é que ela se apresenta aos fisiocratas como evidente, universal e imutável. Era a mesma para todos os homens e para todos os tempos. Não basta conhecer esta ordem natural, é preciso obedecer-lhe. Mas isso não oferece qualquer dificuldade, dado que a ordem natural é evidentemente a mais vantajosa para o género humano, diz Baudeau. Cada indivíduo saberá, natural e livremente, encontrar o caminho que lhe é mais vantajosos. É desnecessária qualquer coacção social. O homem não deve intervir nesta ordem natural. Sem a sua intervenção, o mundo marcha por si mesmo. É a doutrina do laisser faire, que não significava, todavia, que um governo nada tivesse a fazer: cabia-lhe suprimir os entraves criados à ordem natural, assegurar a propriedade e a liberdade, descobrir as leis naturais e ensiná-las.
Os fisiocratas consideram que os resultados da livre concorrência não podem deixar de ser benéficos; refutam a ideia de uma balança de comércio favorável porque entendem que a acumulação da moeda num país faz subir naturalmente os preços; afirmam que as tarifas alfandegárias proteccionistas são muitas vezes prejudiciais ao país que as estabelece.
Para os fisiocratas, só a agricultura é produtiva, dado que só a agricultura tem a possibilidade de produzir uma quantidade de riqueza superior à que consome. Consideravam estéreis tanto a indústria como o comércio. Entendem que só pode ser legitimamente considerado como riqueza o excedente que esta riqueza representar em relação ao consumo de riqueza que aqueles encargos representam. Ao excedente obtido na operação produtiva deram os fisiocratas o nome de produto líquido. Este produto líquido é exclusivo da produção agrícola. Só a agricultura cria realmente riqueza, porque nela ao trabalho produtivo se junta a fecundidade da terra: Deus é o único produtor (Dupont). O comércio e a indústria são classes estéreis na medida em que ganham, mas não produzem. Verdadeiramente, só a agricultura produz e nem mesmo a própria exploração mineira oferece um produto líquido semelhante ao da agricultura.
Os fisiocratas, que definiram riqueza como a totalidade dos bens comercializáveis produzidos anualmente (Quesnay), estabeleceram uma síntese teórica da distribuição dos rendimentos: pretenderam demonstrar que as riquezas circulam na sociedade por elas próprias, de uma classe para a outra. Quesnay distinguia três classes sociais: a classe produtiva, composta pelos agricultores; a classe proprietária, que abrangia não só os proprietários, mas igualmente os que exerciam, a qualquer título, a soberania; a classe estéril, que englobava os que se dedicavam à indústria, ao comércio e às profissões liberais. No seu Quadro, Quesnay descreveu como os rendimentos se distribuíam desigualmente por estas três classes.
O objecto do Quadro era ilustrar a teoria fisiocrática fundada sobre o princípio de que a única fonte de riqueza provinha da agricultura, nos termos de Quesnay, da classe dos agricultores. O ponto de partida do ciclo económico descrito na obra era, portanto, a riqueza produzida pela classe agrícola. O Quadro mostrava como esta riqueza se repartia: a classe agrícola conservava uma parte das riquezas que produzira para a sua própria manutenção e para assegurar a reprodução da riqueza. Uma outra parte dos bens produzidos, ou as quantias em dinheiro que lhes correspondiam, era transferida para a classe proprietária. A classe agrícola tinha de comprar bens industriais ou de pagar serviços à classe estéril. A classe estéril utilizava o dinheiro que recebera das suas vendas e serviços às outras classes na sua subsistência e na compra de matérias-primas necessárias à sua indústria. Em ambos os casos, as somas recebidas pela classe estéril eram recuperadas pela agricultura.
Os fisiocratas defendem a liberdade de trabalho e a liberdade de dispor dos produtos do trabalho. Apesar de subestimarem a actividade comercial, defendem a liberdade de comércio, a livre concorrência, fiéis à ideia de que a liberdade gera o bom preço. Quesnay, contudo, recomenda a regulamentação da taxa de juro, cuja liberdade repele como prejudicial aos interesses da agricultura. Em matéria de política fiscal, e porque é a terra que realmente produz riqueza, entenderam que é sobre a actividade agrícola que deve recair o imposto. Sob o aspecto político, mostram-se favoráveis ao chamado despotismo ilustrado e pensam que no Estado devem prevalecer os interesses dos proprietários rurais, com os quais o soberano é solidário, dado que é o co-proprietário dos produtos líquidos da nação.

10 Comments:

At domingo, 26 Março, 2006, Anonymous Rafaela said...

O que presenciamos hoje em dia é uma visão totalmente contraria a dos fisiocratas,tendo em vista, que o produto agrícola tem seu valor ultrapassado pela venda da tecnologia.Produto fértil valendo mais que infértil.
A mudança da conceituação do que é realmente importante mudou muito, vivemos uma revolução social.A era do consumismo.O que deveria ser levado em consideração por economistas e empresários é a eventual falta de recursos produtivos a que estamos nos infligindo. Todo produto, mercadoria,capital que usamos vêm da natureza.A desvalorização dos recursos naturais leva a uma idéia errônea de que existem recursos suficientes disponiveis para atender a demanda do mercado.Porem o que presenciamos é o contrario.A posição de algumas empresas em não aceitar a implementação de politicas de preservação do recurso natural é uma verdadeira atrofiação do pensamento econômico crítico e lógico.Pois se alguns dos principais problemas econômicos é: o que e como produzir? A questão pode mudar para: como produzir se não temos com o que?
Não estou pregando o uso do pensamento fisiocrático,pois este tem o defeito de ser bastante fechado a uma só linha produtiva.O que realmente devemos entender é que o raciocinio lógico leva a compreenção de que as atividades econômicas são integradas e dependentes umas das outras.E um problema com uma delas afeta todas as outras.

 
At quarta-feira, 18 Março, 2009, Anonymous Anónimo said...

Rafaela...
Compreensão! com S!

Atenciosamente,


Luiza.

 
At quinta-feira, 17 Setembro, 2009, Blogger Suck3r said...

Dane-se o S da COMPREENÇÃO!
Acho que hj em dia o que se ve eh um apanhado de ideias mercantilista e fisiocraticas sendo usadas para compreender a situação economica atual. Cada escola teve sua contribuição para a formação do pensamento economico existente.
Abrass bY Estevan

 
At domingo, 18 Outubro, 2009, Anonymous alexandre said...

A meu ver as escolas econômicas, tanto fisiocratica quanto mercantilista tem sua importante participação na compreensao da economia antiga e atual, a diferença é que elas defendem arestas distintas mas que pesam uniformemente sobre a situação de riquezas. Querer brigar para que uma dessas arestas seja maior que a outra não as fazem assim ser mas auxiliam nos estudos de cada uma como protagonistas das riquezas sociais. Apesar de pensar assim vejo que nos dias atuais a escola fisiocrata perdeu sua força devido ao pensamento consumista dos povos que acabam, por assim seguir, dando maior enfase à pratica industrial e comencial.

 
At domingo, 18 Outubro, 2009, Blogger Suck3r said...

Talvez a fisioracia tenha errado pelo fato de taxar a industria como estéril quando na vrdd Smith provou, decadas mais tarde o contrário.

 
At domingo, 03 Outubro, 2010, Anonymous mario said...

Querida Rafaela,
Parabéns sobre o seu comentário.
O seu comentário é dotado de grande coerência e sensatez.
Compreenção ou Compreensão, tanto faz. O importante é o conteúdo da mensagem transmitida por você.
Não se deixe intimidar por pseudo-linguistas.
Show de bola Garotinha.
Do seu amigo Mario.

 
At sexta-feira, 15 Abril, 2011, Anonymous Edmuller said...

ola eu sou o Edmundo e qria uma materia mas resumida sobre os fisiocratas e o Mercantilismo... Eu agradeço e aguardo

 
At sexta-feira, 02 Março, 2012, Blogger MFEITE said...

simplesmente o os fisiocrátas...acabaram, pois a parte esteril...assume o poder após a revolução francesa...e com isso determina a extinção dos fisiocrátas...e passando assim para á escola classica...onde Adams Smith, David Ricardo e Malthus...tiveram seus papeis fundamentais...na nossa era "pós-moderna" onde se grifa que preocupado com o crescimento da população, Malthus , propos o controle da natalidade ou o aumento da mortalidade....onde depois com 89 anos pedem para apagar essa tese teorica...dizendo que era novo e não pensou no peso de sua teoria...no agora ninguem é de ninguem...

 
At domingo, 20 Maio, 2012, Anonymous Anónimo said...

Bom,tudos o qto vois comentastes é de extrema importancia,porem,é importante realcar q do ponto de vista histórico,tando os fisiocvratas como os mercantilistas,s verdadeirmente...

 
At quarta-feira, 26 Março, 2014, Anonymous Anónimo said...

dizer que todas teorias sao dignas de consideracao,nao somos obrigados a vivermos oque elas dizem,mas e apartir delas q ns inspiramos atraves das criticas q tecemos,e de certa maneira vivemos um presente de investigacao,como uma forma de irmos ao encontro da realdade.

 

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